A nova era da Chanel: o que mudou na Maison?
Durante décadas, a Chanel construiu uma das identidades mais reconhecíveis do mundo da moda. O tweed, a camélia, as pérolas, a bolsa com corrente, o duplo C e a combinação entre preto e branco se transformaram em códigos universais de luxo. Entenda a nova era da Chanel e o que mudou na Maison.
Mas nenhuma grande Maison permanece exatamente igual para sempre.

Em 2025, a Chanel iniciou um novo capítulo com a chegada de Matthieu Blazy à direção artística das atividades de moda. Sua estreia marcou uma mudança importante para a Maison — não necessariamente uma ruptura com o passado, mas uma nova interpretação daquilo que tornou a Chanel tão desejada.
A pergunta, portanto, não é apenas o que mudou na Chanel.
É entender como a Maison está tentando evoluir sem deixar de ser Chanel.
Uma nova fase para uma das maiores Maisons do mundo
A Chanel atravessou diferentes fases criativas ao longo de sua história. Gabrielle Chanel estabeleceu os fundamentos da Maison no início do século XX. Décadas depois, Karl Lagerfeld transformou esses códigos em uma linguagem global e contemporânea. Virginie Viard deu continuidade a essa herança após a morte de Lagerfeld.
Agora, é a vez de Matthieu Blazy.
O designer assumiu a direção artística das atividades de moda da Chanel, incluindo alta-costura, prêt-à-porter e acessórios. Sua primeira coleção, Primavera-Verão 2026, foi apresentada no Grand Palais, em Paris, em outubro de 2025.
A própria Chanel definiu o momento como a abertura de um novo capítulo para a Maison.
E há uma característica particularmente interessante nessa transição: Blazy não parece interessado em simplesmente substituir os códigos da Chanel por uma nova identidade.
A proposta é reinterpretá-los.
Quem é Matthieu Blazy?
Antes de assumir a Chanel, Matthieu Blazy ganhou reconhecimento internacional por seu trabalho na Bottega Veneta, onde ficou conhecido por uma abordagem contemporânea baseada em materiais, construção, artesanato e atenção aos detalhes.
Sua chegada à Chanel trouxe, portanto, uma perspectiva diferente para uma Maison que possui alguns dos códigos visuais mais fortes da indústria da moda.
Em vez de começar do zero, Blazy encontrou uma linguagem já estabelecida.
- Tweed.
- Correntes.
- Camélias.
- Pérolas.
- Preto.
- Branco.
- Sapatos bicolores.
- Bolsas icônicas.
O desafio está justamente em fazer esses elementos parecerem atuais novamente.
A Chanel de Blazy olha para Gabrielle Chanel
Uma das características mais interessantes da nova fase é a maneira como Blazy está revisitando a própria origem da Maison.
A primeira coleção do designer para a Chanel foi apresentada como uma espécie de conversa com Gabrielle Chanel. A própria descrição oficial da coleção afirma que ela busca a essência dos códigos da Maison e estabelece os fundamentos de um guarda-roupa em movimento.
Isso revela uma estratégia importante.
A Chanel não precisa abandonar sua história para parecer contemporânea.
Pelo contrário.
Parte da inovação pode estar justamente em recuperar elementos do passado e apresentá-los sob uma nova perspectiva.
É uma lógica particularmente poderosa no mercado de luxo: quanto mais forte é a história de uma marca, maior pode ser o valor de reinterpretar seus códigos sem eliminá-los.
O que mudou na estética da Chanel?
A mudança ainda está em construção, mas alguns elementos já podem ser percebidos.
A Chanel de Blazy parece buscar uma relação mais espontânea entre sofisticação e movimento. As peças podem continuar carregando os sinais tradicionais da Maison, mas aparecem dentro de proporções, materiais e combinações diferentes.
O objetivo não parece ser fazer com que a Chanel pareça outra marca.
É fazer com que ela pareça uma Chanel de seu tempo.
Na coleção Primavera-Verão 2026, por exemplo, aparecem novas interpretações de acessórios, peças de alfaiataria, chapéus, bonés e elementos tradicionais da Maison. A própria Chanel apresenta a coleção como uma conversa com Gabrielle Chanel e uma releitura da essência de seus códigos.
Essa diferença é sutil, mas importante.
No luxo, uma mudança muito radical pode enfraquecer a identidade. Uma mudança muito pequena pode fazer a marca parecer parada no tempo.
A nova Chanel está tentando ocupar exatamente esse espaço entre tradição e renovação.
E as bolsas Chanel?
Para quem acompanha o mercado de luxo, talvez nenhuma categoria seja tão interessante quanto as bolsas.
Modelos como a Classic Flap, 2.55, Boy Chanel e Chanel 19 ultrapassaram a condição de simples acessórios. Eles se tornaram objetos de desejo, reconhecimento e, em determinados casos, de coleção.
Por isso, qualquer transformação criativa na Maison pode repercutir também no mercado de bolsas.
A Chanel apresentou, em sua nova fase, novas interpretações de suas silhuetas e acessórios. A coleção Métiers d’art 2026, por exemplo, inclui novas versões de bolsas com referências aos códigos tradicionais da Maison.
Mas existe outro aspecto ainda mais interessante.
Uma nova geração de produtos não necessariamente diminui o interesse pelas peças antigas.
Pode acontecer justamente o contrário.
Quando uma Maison revisita seus códigos históricos, consumidores e colecionadores podem voltar sua atenção para versões vintage ou de temporadas anteriores desses mesmos códigos.
É aí que o mercado primário e o mercado secundário começam a conversar.
O valor de uma Chanel não está apenas na etiqueta
Uma bolsa Chanel pode carregar muito mais do que uma marca.
Existe a história da Maison, o trabalho artesanal, os materiais, a construção, o design e a capacidade de determinados modelos permanecerem relevantes ao longo dos anos.
Por isso, no mercado de luxo seminovo, fatores como autenticidade, conservação, raridade, modelo, material, ano e procedência podem influenciar significativamente a percepção de valor de uma peça.
É também por isso que a Chanel ocupa uma posição tão particular no mercado de segunda mão.
Uma criação que atravessa diferentes momentos da história da Maison pode adquirir uma narrativa própria.
Uma bolsa vintage não é apenas uma bolsa antiga.
Pode ser um fragmento da história da Chanel.
A Chanel também está mudando além da moda
Seria um erro observar a nova fase da Chanel apenas pelas passarelas.

A transformação da Maison é muito mais ampla.
Nos resultados financeiros referentes a 2025, a Chanel destacou o desempenho da moda, a recepção do novo CHANEL 25 e a estreia de Matthieu Blazy. O mesmo período também foi marcado por investimentos em varejo, manufatura, relógios, alta joalheria, fragrâncias e beleza.
Isso mostra que a evolução da Chanel não depende exclusivamente do diretor criativo.
A Maison está simultaneamente fortalecendo diferentes partes de seu ecossistema.
- Moda.
- Bolsas.
- Relógios.
- Joias.
- Perfumes.
- Beleza.
- Varejo.
- Artesanato.
- Experiência.
- Circularidade.
Tudo isso contribui para a construção do valor percebido da marca.
A Chanel e o futuro do luxo circular
Outro ponto que merece atenção é a relação da Chanel com a circularidade.
A Maison afirma que sua estratégia de sustentabilidade inclui investimentos em circularidade, durabilidade e extensão dos ciclos de vida de produtos, materiais e espaços.
Um exemplo é o programa CHANEL & moi, que oferece serviços de cuidado, reparo e restauração para criações da Maison, incluindo bolsas, peças de moda, relógios e joias.
Essa abordagem é particularmente relevante em um mercado no qual produtos de luxo podem permanecer em circulação durante muitos anos.
O luxo sempre esteve associado à ideia de permanência.
Agora, essa permanência começa a ganhar uma dimensão adicional: a capacidade de um produto continuar relevante, utilizável e desejável ao longo de diferentes ciclos de consumo.
É exatamente aí que o mercado de luxo seminovo ganha importância.
Uma nova geração de consumidores
O grande desafio da Chanel não é simplesmente preservar os clientes que já conhecem a Maison.
É continuar sendo desejada por consumidores que estão descobrindo o luxo agora.
Essa nova geração convive com referências completamente diferentes das gerações anteriores. Descobre marcas pelas redes sociais, acompanha celebridades e criadores digitais, pesquisa produtos no mercado secundário e pode conhecer uma bolsa vintage antes mesmo de visitar uma boutique.
Para esse consumidor, tradição não significa necessariamente algo antigo.
- Pode significar autenticidade.
- Pode significar história.
- Pode significar exclusividade.
- Pode significar uma peça que não está mais disponível nas lojas.
É nesse contexto que uma Maison como a Chanel precisa encontrar novas maneiras de contar uma história que já é conhecida mundialmente.
O que a nova Chanel significa para o mercado de luxo?
A transformação da Chanel também ajuda a entender uma mudança maior no próprio mercado de luxo.
Durante muito tempo, o desejo estava concentrado na novidade.
Hoje, existe uma valorização crescente da história, raridade, autenticidade e permanência.
Uma peça recém-lançada pode ser desejada.
Mas uma peça de uma coleção antiga, em excelente estado e com uma história particular, também pode despertar enorme interesse.
Essa coexistência entre novo e seminovo é uma das características mais interessantes do luxo contemporâneo.
E marcas como a Chanel estão no centro dessa transformação.
Afinal, o que mudou na Chanel?
A resposta mais simples seria: a direção criativa mudou.
Mas a história é maior do que isso.
A Chanel está entrando em uma nova fase em que tradição e inovação precisam coexistir.
Matthieu Blazy traz uma nova perspectiva para a moda. Ao mesmo tempo, a Maison continua investindo em seus códigos históricos, em seus artesãos, em suas boutiques, em acessórios, relógios, joias, beleza e em iniciativas relacionadas à circularidade.
A mudança, portanto, não parece estar na intenção de abandonar aquilo que fez a Chanel ser Chanel.
Está na maneira de recontar essa história para uma nova geração.
E talvez essa seja uma das maiores forças do verdadeiro luxo.
Uma marca realmente poderosa não precisa escolher entre passado e futuro.
Ela consegue transformar o passado em algo que continua desejável no presente.
Chanel: tradição que continua em movimento
A nova era da Chanel ainda está sendo escrita.
As próximas coleções mostrarão até onde Matthieu Blazy levará sua interpretação da Maison. O comportamento dos consumidores indicará quais novos códigos permanecerão. E o mercado secundário continuará revelando quais criações conseguem atravessar o tempo.
Mas uma coisa já está clara: a Chanel continua tratando sua história não como um ponto final, mas como matéria-prima para o futuro.
Porque, no universo do luxo, o que permanece relevante não é necessariamente aquilo que nunca muda — mas aquilo que consegue mudar sem perder sua essência.
Exoticus Journal
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